Ary Borges: "O São Paulo abraçou o futebol feminino"

Em entrevista exclusiva, a meio-campista falou sobre a temporada do Tricolor e o título do Brasileirão A2


Divulgação/SPFC

O São Paulo Futebol Clube faturou no final de agosto o título do Campeonato Brasileiro A2 ao vencer o Cruzeiro na decisão. A equipe tricolor derrotou a mineira por 4 x 0 na partida de ida, no Pacaembu, e sagrou-se campeã ao empatar o segundo jogo por 1 a 1, em Belo Horizonte.


Foi o primeiro título do Tricolor após a retomada do futebol feminino profissional, no início deste ano. Por ter ficado entre as quatro primeiras do campeonato, as meninas do São Paulo garantiram o acesso ao Campeonato Brasileiro A1 em 2020. O clube ainda está na disputa do Campeonato Paulista, onde disputa uma vaga direta nas semifinais contra o rival Palmeiras no próximo sábado (07), no Pacaembu.


Para falar sobre a conquista do Brasileiro e o trabalho do clube paulista no futebol feminino, o Portal Poliesportivo entrevistou a meio-campista Ary Borges, atual capitã do time e camisa 10 na campanha vitoriosa nesta temporada.


Com apenas 19 anos, Ary chegou ao São Paulo no início de 2019 a convite do treinador Lucas Piccinato, com quem trabalhou no Centro Olímpico. Antes de desembarcar no Tricolor, a maranhense de São Luís jogou por duas temporadas no Sport Recife e já tem no currículo o título do Sul-americano sub-20 pela Seleção Brasileira.


Confira o bate-papo:


Portal Poliesportivo: Mesmo com pouco tempo de trabalho, o São Paulo já conquistou um título no futebol feminino profissional. Para você, qual foi o fator mais importante para essa conquista?


Ary Borges: Eu acho que foi o São Paulo olhar para o futebol feminino com bons olhos. Não foi só um clube que deu a camisa e largou o time de mão. O clube ter investido e montado um time para ser campeão fez com que a gente conquistasse o título. A estrutura do clube e ele ter realmente abraçado a modalidade fez com que colhêssemos o fruto com o título.



Divulgação/SPFC

PP: O fato de outros times também terem sido montados recentemente ajudou a equilibrar o campeonato, na sua opinião?


AB: Acho que a questão não é equilibrar, porque os clubes que olharam com bons olhos montaram bons times e consequentemente colheram os frutos. Se fosse para pensar desse jeito, o Grêmio teria levado vantagem sobre a gente pelo fato de ter um time há mais tempo. A partir do momento que você olha com bons olhos e investe na modalidade, você vai conseguir bons resultados e foi isso o que aconteceu.


P: O fato de já ter trabalhado com o Lucas Piccinato ajudou na sua adaptação ao clube?


AB: Acho que sim. Trabalhar com alguém que você já tem confiança e com quem trabalhou muito tempo influenciou bastante para eu estar aqui. Acho que não só comigo, mas também com outras atletas que ele já trabalhou, criando uma harmonia entre comissão e atletas.


P: Qual é o planejamento do clube até o final de 2019 em termos de competições?


AB: O São Paulo entra em todas as competições para ser campeão. A gente agora está em busca do Paulista, um campeonato muito difícil e que antes da criação do Brasileiro era o campeonato mais difícil do calendário do futebol feminino. A gente já ganhou o Brasileiro e agora é foco total no Paulista para classificar para a semifinal e quem sabe conseguir o título.


P: Muito tem se debatido a estrutura dos clubes para o futebol feminino. No São Paulo, especificamente, como você avalia o trabalho desenvolvido e a estrutura?


AB: Eu achei super bacana o investimento que o clube fez na modalidade. Acho que o próprio clube tem noção de onde falha e isso são coisas que foram acertadas durante o ano e creio que também serão acertadas para o ano que vem. O São Paulo investiu o que tinha para investir na modalidade, olhou com um pouquinho mais de carinho para o futebol feminino e colheu os frutos, como o próprio título do Brasileiro A2, a boa campanha no Paulista no primeiro semestre e uma invencibilidade de sete meses ao longo do ano. É difícil fazer isso e não foi só jogando contra times de nível mais baixo, pois também jogamos contra times da Série A1.


P: Li uma entrevista onde você criticou a falta de investimentos no futebol de base feminino e também os poucos campeonatos realizados nas categorias inferiores. Na sua formação, qual a principal dificuldade que você teve nesse sentido?


AB: Eu acho que a principal dificuldade que nós temos é a de não ter tantas competições para as meninas mais novas e aí é complicado você cobrar elas quando chegarem no nível mais alto, porque elas não têm tanta rodagem. Hoje está melhor, as meninas têm o Campeonato Paulista, o Brasileiro e a própria Libertadores, mas acho que ainda poderia ser feito de uma forma um pouquinho mais organizada do que vem sendo feito, principalmente o Campeonato Brasileiro. Acredito que, para o ano que vem, eles (CBF) devem arrumar isso e reformular esse calendário para fazer com que as meninas tenham mais jogos, mais rodagem e cheguem no profissional com um pouco mais de qualidade.


P: Ainda em cima desse assunto, a criação do Brasileiro sub-18 neste ano vai ao encontro dessa investimento que você tem cobrado?


AB: Achei bacana a iniciativa para a criação do campeonato, só acho que eles deveriam ter organizado a competição de uma forma melhor. É bem desumano você colocar meninas de 17 e 18 anos para jogar dia sim dia não. Mesmo assim, achei muito legal a iniciativa do campeonato, colocando as meninas para jogar e permitir que elas cheguem um pouquinho mais preparadas para o profissional.


P: Com a Copa do Mundo disputada na França, a discussão em torno do futebol feminino no Brasil cresceu bastante. Você teme que esse debate sobre a categoria caia no esquecimento ou acha que a tendência é de crescimento?


AB: Eu acho que a Copa veio para mostrar que o futebol feminino é um produto que pode ser muito bem vendido, que tem gente que gosta de assistir, de pagar para ir ao estádio e comprar camisa dos clubes e das seleções. Eu torço muito para que não caia no esquecimento, que seja como foi esse ano, alavancando a modalidade e dando a ela visibilidade. Torço muito para que continue dessa forma e que as pessoas continuem abraçando o futebol feminino, assim como fizeram durante a Copa.


P: Como você avalia a cobertura da imprensa no Brasil sobre o futebol feminino? Percebeu uma mudança nesse aspecto após a Copa do Mundo?


AB: Percebi sim. Eu acho que a visibilidade em torno da modalidade está maior. Dá para ver o interesse dos jornalistas e de todo mundo que trabalha nesse meio de mostrar o futebol feminino. Vários canais têm dado visibilidade e acho que é bacana ver o interesse das pessoas em mostrar o nosso trabalho. Talvez era isso que faltava um pouquinho, mas a modalidade tem engatinhado e creio eu que a tendência é só aumentar.

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